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Esportes

Ato de jogadores argentinos reacende debate sobre domínio das Malvinas

Última atualização: julho 19, 2026 11:00 am
9 Min Leitura
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Ato de jogadores argentinos reacende debate sobre domínio das Malvinas

A imagem de jogadores da Argentina erguendo uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas”, após a vitória da seleção sobre a Inglaterra por 2 a 1, percorreu o mundo, na quarta-feira (15).

Pelas regras da Federação Internacional de Futebol (Fifa), o ato, na semifinal da Copa do Mundo, pode gerar punições, mas fora dos gramados reacendeu a discussão sobre a posse do arquipélago ultramarino, reivindicado pela Argentina, mas administrado pela Grã-Bretanha. Neste domingo (19), a seleção argentina busca o seu quarto título mundial em jogo único contra a seleção espanhola.

“O gesto dos jogadores, de exibir para o mundo inteiro uma bandeira confeccionada por um torcedor a partir de um lençol de hotel tornou-se um feito compartilhado por todo o povo argentino”, afirmou à Agência Brasil, a diplomata e ex-embaixadora da Argentina no Reino Unido, Alicia Castro.

O ato dos jogadores da albiceleste se assemelha ao do técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, defendeu Castro, que ergueu uma bandeira da Palestina. Ele não foi punido, no entanto, porque a seleção palestina de futebol é afiliada à Fifa.

As Ilhas Malvinas/Falklands são um território a sudoeste do Oceano Atlântico, a 500 quilômetros da costa argentina, administrado pelo Reino Unido. Objeto de disputa entre os dois países há décadas, a Argentina considera o arquipélago parte de seu território e mantém uma reivindicação de soberania.

As Nações Unidas (ONU) defendem uma solução pacífica para o conflito no âmbito das ações de descolonização. Em 1982, os dois países se enfrentaram em uma guerra de 74 dias que deixou centenas de mortos. A maioria soldados argentinos, sem condições de enfrentar o poderio bélico britânico.

Derrotada, a Argentina trata a questão como uma “ferida aberta”. Na Copa do Mundo de 1986, quatro anos depois da guerra, a vitória da albiceleste sobre a Inglaterra, por 2 x 1, foi encarada como uma revanche, com dois gols de Diego Maradona. Com 21 anos em 1982, ele não foi para a guerra por já ser um jogador de destaque indo para o exterior.

 

O astro argentino Diego Maradona levanta o braço ao ar após marcar o gol da vitória contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo no México, em 22 de junho de 1986. REUTERS/POOL/Ted Blackbrow – REUTERS/POOL/Ted Blackbrow/proibida reprodução

Ainda hoje, as Ilhas Malvinas estão nos cânticos das torcidas e lembradas em campeonatos, diz o cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, e torcedor do Boca Juniors, um dos principais times argentinos. “A torcida da seleção traz essas lembranças, assim como os clubes locais. Todos fazem alguma menção à questão das Malvinas”, disse Gabiati.

“Esse é um tema que está presente sempre que a seleção argentina joga. A torcida, o povo, de alguma forma, tem uma memória coletiva do conflito e traz isso como uma bandeira nacional”, explicou. “Essa é uma agenda que unifica o país, está acima de qualquer divergência ideológica”, pontuou Gabiati.

Além do grande apoio popular na Argentina, a questão tem provocado desconforto aos ingleses. Em artigo no jornal The Guardian, na quinta-feira (16), o renomado colunista Simon Jenkins pediu uma negociação entre os países. “Nenhum dos territórios britânicos da era imperial tem o direito eterno de permanecer como está, muito menos um que custe aos contribuintes mais de 60 milhões de libras anuais”.

O embaixador Guillermo Carmona foi secretário das Malvinas do governo argentino até 2023, no governo de Alberto Fernández, e buscou soluções por meio do multilateralismo, com apoio da ONU. Ele concorda que a gestão das Malvinas pelo Reino Unido é anacrônica.

“Isso não pode continuar indefinidamente”, afirmou. Para ele, a abertura da faixa pelos jogadores foi um ato de “soft power”, para destravar as negociações.

“O gesto dos jogadores deveria despertar os diplomatas britânicos de sua inércia e forçá-los a confrontar uma realidade geográfica e histórica inescapável”, reiterou Carmona à Agência Brasil.

A diplomata Alicia Castro acrescenta que a abertura da faixa demonstrou que “a luta contra o colonialismo permanece um imperativo ético”. “Além de superioridade em campo, os nossos jogadores demonstraram um profundo senso de humanidade e, por isso, receberam apoio internacional”, avaliou.

Qualquer punição aos jogadores, conforme solicitado por autoridades britânicas, na avaliação dos entrevistados, é hipocrisia. Para eles, a Fifa aplica as regras de acordo com a conveniência.

“A Fifa baniu a Rússia de competições por motivos geopolíticos, cedeu aos Estados Unidos para suspender sanções a jogadores e maltratou o Irã por razões alheias ao esporte”, avaliou Carmona.

O político observa que a entidade máxima do futebol atua como um instrumento do norte global para desmerecer manifestações de soberania de nações, como ocorreu quando vetou à camisa do Haiti na Copa, por conter referências à revolução que levou à independência do país da América Central.

A Fifa não comentou as críticas e explicou que, no caso de manifestações políticas durante torneios, o procedimento padrão é acionar o Comitê Disciplinar Independente. O órgão já avalia os relatórios da partida de quarta-feira e decidirá novos passos de acordo com o Código Disciplinar da entidade.

Em 2014, a federação multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em US$ 33 mil depois que seus jogadores exibiram uma faixa com a mesma mensagem, antes de um amistoso contra a Eslovênia.

Em entrevista à Rádio El Observador, o presidente Javier Milei disse que compreende os sentimentos dos jogadores “e que estão presente em todos os argentinos”. Segundo ele, o ato de protesto foi “válido e lícito”. Milei também prometeu esforços para recuperar o território no mar. “As Malvinas são argentinas e nós vamos recuperá-las”, disse, citando que usará apenas as vias diplomáticas.

Histórico das Ilhas Malvinas/Falklands

Desde o chamado “descobrimento”, as Ilhas Malvinas pertenciam à Espanha, apesar de terem sido ocupadas por franceses e ingleses. O local passou anos desabitado, serviu de colônia penal e só interessava a pescadores, sobretudo, baleeiros. 

Em 1982, os dois países se enfrentaram em uma guerra de 74 dias que deixou centenas de mortos, maior parte soldados argentinos. REUTERS/Eduardo Farre (FALKLANDS ISLANDS) – Reuters/Eduardo Farre/Arquivo/Proibida reprodução

Após a independência argentina da ex-colônia, em 1816, o país considerava que tinha herdado o arquipélago. No entanto, a frágil administração local foi expulsa pelos ingleses, em 1833, que povoaram o território. A Grã-Bretanha queria a passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico e instalar ali uma base militar. Hoje, o local também é disputado por suas riquezas minerais, como o petróleo.

A argentina, no entanto, rejeita a soberania britânica, que trata as ilhas como um território ultramarino. Segundo os historiadores, até a primeira metade do século 20 as Ilhas Malvinas não foram uma prioridade dos argentinos, mas o tópico voltou a campo no governo Perón (1946-1955), que era um nacionalista. Nesse período, a prevaleceu a cooperação com os habitantes ingleses locais com a intenção de aproximá-los da Argentina.

Mais recentemente, em junho de 2026, a ONU, por meio Comitê de Descolonização, reiterou a necessidade de uma solução pacífica e negociada sobre o território, como vem fazendo desde 1989.

Fonte: Agência Brasil

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